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terça-feira, 28 de agosto de 2018

Conversando sobre o Exercício e a Esclerose Múltipla


Prezados Colegas Fisioterapeutas, Alunos e Pacientes  
Espero que estejam bem!
A minha postagem hoje será sobre o exercício para a pessoa com Esclerose Múltipla

No dia 30 de agosto comemoraremos o Dia Nacional de Conscientização sobre a Esclerose Múltipla (EM) que é uma doença auto-imune, desmielinizante e que afeta aproximadamente 2,3 milhões de pessoas em todo o mundo.  As medicações atuais têm contribuído para a melhoria dos cuidados de saúde, bem como, têm ajudado mais pacientes a permanecerem estáveis ​​em sua doença, e consequentemente, viverem mais tempo. Todavia, o declínio da função ainda ocorre ao longo do tempo e na maioria das pessoas, por essa razão, desenvolve uma incapacidade física permanente. Sendo assim, a progressão da doença e os danos resultantes comprometem a qualidade vida.
A Fisioterapia tem como objetivo compensar as deficiências sensório-motoras e para tanto alguns aspectos precisam ficar evidentes para a pessoa com EM durante o tratamento.
No dia 25 de agosto de 2018, no Hospital Regional de Presidente Prudente foi realizado um evento com pessoas com EM e seus familiares para celebrar o Dia Nacional de Conscientização sobre a Esclerose Múltipla que ocorrerá dia 30 deste mês.



Neste evento apresentei numa mesa redonda uma aula a partir minha experiência, dos meus estudos e dos questionamentos dos pacientes na prática clínica. Destaquei a importância do exercício em forma de perguntas e respostas que considerei importante:
Paciente: Por que eu tenho que fazer exercícios quando tenho esclerose múltipla?
Fisioterapeuta:
Todas as pessoas precisam fazer exercício independentemente de ter ou não uma doença. O exercício melhora a flexibilidade muscular, a mobilidade articular, a condição cardiorrespiratória, dentre outros benefícios.
O corpo humano foi projetado para realizar movimentos e quando ele fica muito tempo parado apresentará prejuízos como encurtamentos, flacidez muscular e acúmulo de gordura. Portanto, o sedentarismo é muito prejudicial ao corpo humano.  
A EM causa déficits importantes ao longo do tempo e quanto mais sedentário você for maior será as consequências da doença no seu corpo. 
Paciente: Quais são as características da esclerose múltipla que o exercício pode ajudar?
Fisioterapeuta:
Quando se faz exercícios o corpo precisa reagir porque sempre trabalhamos as deficiências desencadeadas pela doença. Portanto, o exercício melhora a força e a flexibilidade muscular, o equilíbrio e a coordenação, condicionamento cardiorrespiratório e diminui a fadiga e o risco de queda.
Cada dificuldade funcional que a EM causa deve ser trabalhada utilizando exercícios que simulem esta dificuldade tais como, por exemplo, levantar e sentar de uma cadeira, subir escadas. Quando não se faz exercício o corpo não reage, se mantem com a dificuldade e, portanto as dificuldades se mantêm.
Paciente: Quando eu devo parar de fazer exercícios?
Fisioterapeuta:
Todas as pessoas com ou sem EM devem fazer exercícios diariamente. O Colégio Americano de Medicina do Esporte preconiza que temos que andar 10.000 passos por dia e fazer exercícios 3 a 5 vezes por semana. Portanto, não pode-se parar de fazer exercícios.
Muitas vezes a pessoa com EM tem um grau de fadiga importante que faz com se desanime e pare temporariamente a prática de exercícios. Entretanto, isto é errado, porque quando a pessoa para de fazer exercícios perde-se muito do que se ganhou no período de treinamento.
Paciente: As vezes acho que os exercícios não alteram nada em minha vida.
Fisioterapeuta:
Este sentimento é comum. Às vezes a pessoa com EM não percebe as mudanças que o exercício faz em seu corpo porque acredita que ficará sem nenhum sinal e sintoma da EM.
O exercício faz pequenas mudanças no corpo que se soma ao longo tempo, além disso, previne perdas funcionais causadas pela EM.
Paciente: Devo fazer exercícios quando estou cansado?
Fisioterapeuta:
O cansaço (fadiga) é uma das características da EM. Não se pode deixar de fazer exercício quando se sente cansado ou fadigado, porém deve-se respeitar e diminuir a intensidade, a quantidade de exercício ou e também o número de dias de exercício.
Após o exercício não pode sentir-se esgotado ou com dor, pois isto é um sinal de excesso de trabalho podendo causar prejuízos funcionais. Adicionalmente, deixar de fazer exercício a cada estado de cansaço pode diminuir muito a qualidade e o resultado do exercício.
Paciente: Quais os tipos de exercícios eu posso fazer?
Fisioterapeuta:
Não há uma clara proibição para um modelo de exercício, todavia qualquer modalidade de exercício deve ocorrer após uma avaliação adequada utilizando critérios para medir as disfunções e as capacidades, com o objetivo de fazer um acompanhamento adequado.
As altas intensidades de exercícios com uma grande sobrecarga de peso, muitas repetições e dias por semana pode desencadear lesões muscular, ligamentares, articulares e dores, portando a intensidade deve ser moderada.
Observa-se trabalhos científicos com treino em esteira, pilates, fortalecimento muscular, natação demonstrando os benefícios do exercício devidamente ministrado.
Não fazer nenhuma modalidade de exercício leva ao sedentarismo e suas complicações. Fazer exercícios de alta intensidade, de muitas repetições causa lesão, fadiga e dor.
Paciente: Devo fazer exercício individual ou num grupo?
Fisioterapeuta:
Ambas as formas são recomendadas, todavia dependendo da evolução da EM você pode não acompanhar as atividades propostas no grupo, e portanto a terapia individual torna-se mais recomendada porque é elaborada especificamente para atender suas necessidades.
As terapias em grupo normalmente trabalham funcionalidade e dão oportunidades de conviver com pessoas na mesma situação permitindo as trocas de experiências. Pode-se também fazer as duas modalidades.
O primeiro vídeo demonstra um momento de fisioterapia em grupo no modelo de circuito de treinamento onde cada participante trabalha uma funcionalidade em estações separadas e ao comando troca de estação. O segundo vídeo demonstra um trabalho de coordenação, equilíbrio, memória e respiração utilizando o canto e a dança.

vídeo 1


vídeo 2


Paciente: Porque devo fazer exercícios em casa?
Fisioterapeuta:
Normalmente as pessoas com EM fazem sessões de 30 a 50 minutos de fisioterapia, 2 ou 3 vezes por semana e os demais dias você podem realizar os exercícios recomendados em sua casa, e por isso podendo treinar ainda mais seu corpo.
Fazer exercícios em casa requer treino, disposição e tempo para você cuidar de você. O corpo reage somente quando os estímulos são repetitivos. O seu fisioterapeuta pode elaborar uma cartilha de exercícios complementares ou os mesmo que você pratica durante as suas sessões.
Paciente: Quando devo adaptar minha casa ?
Fisioterapeuta:
Muitas vezes as pessoas recebem o diagnóstico de EM já apresentavam alguns sinais da doença, como dificuldade de andar e desequilíbrio e nestes casos a adaptação deve ser imediata.
As adaptações podem ser progressivas conforme os sinais vão surgindo. Algumas delas são retirar os tapetes evitando as quedas, colocação de barras de apoio no box do banheiro, assento fixo para lavar os pés,  portas toalhas e suporte para xampu fixo e de fácil acesso, bucha com cabo alongamento para auxiliar lavar as costas, tapete emborrachado dentro do box para não escorregar na espuma,  manter uma luz acesa a noite para iluminar o acesso ao banheiro, elevar a cama para facilitar o ficar em pé, poltronas e sofás confortáveis e com braços e assento alto para facilitar o sentar e o levantar.
O terapeuta ocupacional é o profissional preparado para dar as orientações necessárias para facilitar melhor suas funcionalidades.
Paciente: Quando devo usar uma bengala ou andador?
Fisioterapeuta:
Usar ou não uma bengala ou andador é uma decisão conjunta com o seu fisioterapeuta, todavia muitas pessoas com EM tem dificuldade de aceitar o uso acreditando que as pessoas irão identifica-los como doentes.
Quando o risco de queda é alto essa decisão deve ser tomada o mais rápido possível porque uma fratura óssea pode trazer muitas complicações. A adaptação da bengala pode ocorrer dentro de casa e se estender para as casas de pessoas mais próximas e assim a pessoa com EM perceberá a importância do acessório para sua segurança.
Paciente: O que eu faço quando os exercícios frustram as minhas expectativas?
Fisioterapeuta:
A EM é uma doença incapacitante e tem seu curso natural que pode ser controlado com a medicação, os exercícios e demais atividades propostas por outros profissionais da equipe.
Quanto mais a pessoa com EM participar de forma correta do seu tratamento, buscando conhecimento da doença com os profissionais, esclarecendo as pessoas ao seu redor menor será a sua frustração.
A psicologia é fundamental para o entendimento e aceitação das consequências da EM.

A pérola fisioterapêutica desta postagem norteia-se em:
O fisioterapeuta precisa estar sempre esclarecendo a importância do exercício para a pessoa com EM para que a adesão ao tratamento seja boa e constante e com isso pode-se obter um melhor resultado no tratamento.

Por hoje é isto!
Espero que você possa pensar neste assunto e fazer suas considerações deixando um comentário e compartilhando este post.

Um abraço.
Augusto Cesinando

Bibliografia Recomendada

Halabchi, F., Alizadeh, Z., Sahraian, M.A., Abolhasani, M.,Exercise prescription for patients with multiple sclerosis; potential benefits and practical recommendations. BMC Neurol. 2017 Sep 16;17(1):185. doi: 10.1186/s12883-017-0960-9.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Devo fortalecer os músculos espásticos de crianças com paralisia cerebral?

Prezados Colegas
Espero que estejam bem e com saúde!

A minha postagem hoje será sobre o fortalecimento muscular numa criança com paralisia cerebral.

A paralisia cerebral (PC) é descrita como uma desordem no desenvolvimento do movimento, da postural causando limitação das atividades funcionais devido a distúrbios não progressivos do encéfalo que ocorreram durante o desenvolvimento fetal ou na infância.

O comprometimento motor na PC é multifactorial e inclui problemas tais como contraturas, espasticidade, deformidades ósseas, problemas de coordenação, perda de seletiva do controle motor e a fraqueza muscular, dentre outras. A fraqueza muscular na PC pode ter várias explicações como o déficit na ativação neuronal e recrutamento de unidades motoras como também encurtamento muscular.

Historicamente, a espasticidade foi considerada uma deficiência primária na PC; portanto, a redução da mesma era o foco para a melhora funcional da criança, além disso, será pensado que os músculos espásticos estavam excessivamente forte ou ativo e o fortalecimento não era cogitado, pois poderia aumentar o padrão espástico.

Há muitas discussões sobre a relação entre espasticidade, força muscular e função motora de crianças com PC, além disso, é pensado que a espasticidade é inversamente relacionada com a função motora grossa e marcha, de modo que o maior a espasticidade menor será o nível de função. Ao contrário disto, a força é pensada estar diretamente relacionado com a função motora grossa e marcha, ou seja, quanto maior será a força maior será o nível de função.

Muitas pesquisas têm documentado a força de pacientes com danos cerebrais e demonstrado fraqueza muscular, todavia ainda não está claro se é a espasticidade, fraqueza, ou a combinação das duas que pode ser a causa dos déficits observados em crianças com PC.

Das diversas dificuldades funcionais na PC destaca-se a marcha (incluindo a velocidade e a resistência) e, portanto melhorar a capacidade de andar é uma importante meta das intervenções terapêuticas para crianças com paralisia cerebral.

Há um crescente interesse em estudar a força muscular nestas crianças, uma vez que tem sido sugerido que a fraqueza muscular tem uma forte associação com limitações de mobilidade.

Vários trabalhos mostram evidências de que o treinamento resistido melhora a força muscular em crianças com PC e não causam efeitos adversos sobre a espasticidade ou amplitude de movimento. No entanto também existem trabalhos que demonstram que treinamento de força não é eficaz em crianças com PC e outros que demonstram o aumento da força muscular sem o aumento da capacidade de caminhar.

O fisioterapeuta que se interessar pelo fortalecimento dos músculos dos membros inferiores de PC deve lembrar que a criança precisa de um mínimo de amplitude de movimento para iniciar o treinamento. Além disso, entende-se que o esforço não deve causar compensações musculares em outras regiões e na ocorrência disto deve-se pensar que a resistência ou amplitude do movimento podem estar grande demais.

O inicio do processo é complexo, pois a criança pode ter dificuldade de entender o procedimento ou não conseguir realizar o movimento isolado adequadamente, mas um pouco de paciência resolverá a questão. O treinamento deve continuar em casa diariamente e para isso a participação no processo é fundamental.

Diante disto iniciou-se o treinamento muscular em pacientes com PC na nossa Clinica Escola (http://www.fct.unesp.br/#!/graduacao/fisioterapia).

O treinamento consiste em fazer extensão o joelho a partir de uma flexão completa com os pés apoiados (Foto A) numa prancha de madeira ligada numa outra que encontra-se sob o quadril e a coluna lombar por um tudo elástico

Os pés são estabilizados pela mão do terapeuta e que somente após nas primeiras repetições e moldam adequadamente sobre a madeira. Nos primeiros movimentos os joelhos tendem se manter aduzidos (Foto B) mas com o posicionamento e o comando verbal tornam paralelos. A extensão do joelho torna se mais eficiente com as repetições (Foto C).

O número de repetições e a resistência da espessura do tubo de elástico variam de conforme a capacidade funcional e a força muscular. A intensidade deverá progredir com o tempo para proporcionar resistência e força muscular (geralmente inicia-se com 3 séries de 8-12 repeticões) e deve ser concluída na presença de fadiga. O modelo de impor uma resistência ao um movimento articular pode variar conforme a experiência de cada terapeuta (Ex: theraband, polias, halteres)

 A pérola fisioterapêutica desta postagem norteia-se em:

O fisioterapeuta que atende uma criança com PC deve pensar que além das manobras de inibição de padrões espásticos e facilitação de movimentos poderá utilizar o fortalecimento muscular para melhorar a capacidade funcional da criança. É fundamental avaliar periodicamente o feito da terapêutica.

Por hoje é isto!

Espero que você possa pensar neste assunto e fazer suas considerações deixando um comentário e compartilhando este post.

Um abraço fisioterapêutico.

domingo, 2 de novembro de 2014

Como combater o sedentarismo no hemiparético?

Prezados Colegas,
Espero que estejam bem e com saúde!

Esta postagem trata do sedentarismo do paciente hemiparético.

Muitos pessoas após um acidente vascular encefálico (AVE) tornam-se hemipáreticos com um estilo de vida sedentário e um baixo desempenho das atividades da vida diária. Este estilo de vida sedentária contribui para um aumento do risco de ter um outro AVE e adquirir  outras doenças cardiovasculares.

Embora os sobreviventes de um AVE variam o grau de funcionalidade, diversos estudos tem encontrado baixos níveis de atividade física em hemiparéticos. Estes níveis são menores do que a de adultos mais velhos com outras condições crônicas de saúde.

A atividade física é definida como qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que resulta em gasto energético, enquanto que o exercício é um subconjunto de atividades físicas planejadas, estruturadas e repetitivas. Ambos melhoram ou mantém a aptidão física.

Há fortes evidências de que o exercício físico após o AVE pode melhorar a aptidão cardiovascular, capacidade de andar, a força muscular dos membros superiores e inferiores, o equilíbrio e a participação social. Além disso, tem sido utilizado  para melhorar os sintomas depressivos, a função executiva e memória do cérebro, a fadiga e a qualidade de vida.

Hemiparéticos sobreviventes de AVE podem se beneficiar do aumento da participação em atividades físicas, a partir de uma prescrição adequada para o treinamento físico. Portanto, fisioterapeutas precisam criar e ministrar uma programação exercício para seus pacientes, além das manobras fisioterapêuticas clássicas nas posições deitada, sentada e em pé. 

Artigos na literatura declaram uma lacuna de conhecimento atual em recomendações de atividade e exercício físico na população hemiparética.

Após um AVE recuperação total é alcançada em apenas uma pequena proporção dos sobreviventes e observa-se limitações de atividade das tarefas diárias após os 6 meses do insulto.

O sedentarismo é particularmente desconcertante em muitos dos hemiparéticos que tem a capacidade de empreender maiores níveis de atividade física, mas optam por não mudar seus estilos de vida por razões que perpassam pela (a) falta de consciência de que exercício é viável, e importante para uma vida mais saudável; (b) dificuldade de acesso a locais que tratem com exercícios periódicos estruturados e progressivos, (c) influências sociais e ambientais, tais como os custos do programa, meios de transporte, acessibilidade, apoio familiar, políticas sociais, dentre outras razões. O estilo de vida não é uma característica isolada e sim um conjunto de fatores.

Além destas razões deve-se lembrar que pacientes com AVE tem uma elevada prevalência de problemas médicos associados. Condições pré-existentes ao insulto como a hipertensão crônica, fibrilação atrial, hiperlipidemia, obesidade, fumante, etilismo crônico, síndrome metabólica e diabete mellitus podem ter implicações importantes no comportamento sedentário.

Estas condições podem criar um círculo vicioso de diminuição da atividade e maior intolerância ao exercício, o que leva a complicações secundárias, como a redução da aptidão cardiorrespiratória, aumento da fatigabilidade, fraqueza muscular, osteoporose e circulação prejudicada para as extremidades inferiores. Associado a isto, observa-se ainda a diminuição da auto eficácia, maior dependência de outras pessoas para as atividades da vida diária, e reduzida capacidade para interações sociais normais que pode ter um impacto psicológico negativo profundo.

A existência de condições cardiovasculares, antes ou depois do AVE podem atrasar ou inibir a participação em um programa de exercícios e limitar a capacidade do paciente de realizar atividades funcionais de forma independente. Há fortes evidências para uma clara relação inversa entre atividade física e saúde cardiovascular.

A inatividade ao longo dos dias, das semanas e dos meses é um dos maiores problemas relacionados com o declínio da mobilidade pós AVE e programas que evitem o sedentarismo, que melhorem a marcha e atividades relacionadas a marcha são muito importantes para hemiparéticos. Estudos indicam que mesmo na fase crônica, podem ocorrer mudanças na capacidade de andar, quando hemiparéticos são submetidos a intervenções fisioterapêuticas específicas.

Intervenções cardiorrespiratória ainda não fazem parte dos programas rotineiros de centros de reabilitação neurológica e frequentemente as terapias tem suas bases em princípios do desenvolvimento neuro evolutivos como o conceito Bobath.

Convivendo com nossos hemiparéticos sedentários na FCT-UNESP começamos estudar protocolos de tratamento para implementar nossa prática fisioterapêutica e melhorar a qualidade de vida destes pacientes.

Encontramos diversos estudos e revisões sistemáticas demonstram que diferentes formas de treinamento, todavia não há um consenso sobre o assunto, pois existe uma diversidade muito grande: 1) fase pós AVE ( agudo, sub agudo e crônico), 2) treinamento com ou sem a suspensão de peso, 3) treino de caminhada com ou sem esteira, 4) intensidade do treinamento (variação de 50 a 80% da frequência cardíaca de reserva), 5) duração do treinamento (4 a 16 semanas), 6) instrumentos de avaliação (Teste de caminhada de 6min, Teste de velocidade de marcha de 10metros, Escala de Equilíbrio de Berg, etc).

Diante deste nosso debruçar sobre a literatura observamos que  o treinamento de marcha na esteira tem demonstrado uma ótima estratégia/ferramenta para retirar os nossos pacientes do sedentarismo e melhorar a qualidade de vida e motricidade funcional, todavia  antes de iniciarmos o treinamento na esteira surgiram algumas perguntas que serão respondidas ao longo das próximas postagens:



Pode-se perceber com estas perguntas que o fisioterapeuta precisa estar preparado para alterar o comportamento sedentário e que o processo é complexo e necessita de muita responsabilidade tanto do terapeuta como do paciente e seus familiares.

Mudanças de tempo.
Os exercícios físicos aeróbicos chegaram na neurologia. A figura demonstra dois pacientes sendo submetidos a um protocolo de treinamento aeróbico em estudo na FCT-UNESP. 

As próximas postagens trarão maiores detalhes/respostas de cada pergunta apresentada e os diferentes protocolos existentes na literatura para você pensar, estudar e praticar com seus pacientes.



A pérola fisioterapêutica desta postagem norteia-se em:

A prática de exercícios aeróbicos em pacientes neurológicos tem sido cada vez mais difundida na literatura e cabe a nós fisioterapeutas quebrar os paradigmas de que o paciente neurológico não pode fazer exercícios pois aumenta o padrão espásticos e postural.

Por hoje é isto!
Espero que você possa pensar neste assunto e fazer suas considerações deixando um comentário e compartilhando este post.
Um abraço fisioterapêutico.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Preocupação com a mobilidade responsável pela funcionalidade de hemiplégicos


Prezados Colegas,
Espero que estejam bem e com saúde!

Esta postagem trata do porquê que um fisioterapeuta deve se preocupar com a mobilidade responsável pela funcionalidade diária de um paciente hemiplégico.

Durante a avaliação de um paciente deve se questionar como ele realiza os movimentos responsáveis pelas atividades funcionais, pois é neste momento que se obtém informações do paciente e de sua família sobre o comportamento funcional frente ao déficit de mobilidade determinado pelo acidente vascular encefálico (AVE). O Índice de Barthel Modificado (IBM) é uma escala que pode facilitar esta avaliação.

O IBM dá condições de analisar a independência funcional no cuidado pessoal, mobilidade, locomoção e cada item é pontuado de acordo com o desempenho do paciente em realizar tarefas de forma independente, com alguma ajuda ou de forma dependente. Uma pontuação geral é formada atribuindo-se pontos em cada categoria, a depender do tempo e da assistência necessária a cada paciente. A pontuação varia de 0 a 50, em intervalos de cinco pontos e as pontuações mais elevadas indicam maior independência. A versão utilizada avalia a independência funcional em dez tarefas: alimentação, banho, vestuário, higiene pessoal, controle de esfíncter intestinal, controle de esfíncter vesical, uso do vaso sanitário, transferência cadeira-cama, deambulação e escadas.

ÍNDICE DE BARTHEL MODIFICADO

1. Alimentação

1.   Dependente. Precisa ser alimentado.
2.   Assistência ativa durante toda tarefa.
3.   Supervisão na refeição e assistência para tarefas associadas (sal, manteiga, fazer o prato).
4.   Independente, exceto para tarefas complexas como cortar a carne e abrir leite.
5.   Independente. Come sozinho, quando se põe a comida ao seu alcance. Deve ser capaz de fazer as ajudas técnicas quando necessário.
                                                                                                   Subtotal:
2. Higiene Pessoal
1.   Dependente. Incapaz de encarregar-se da higiene pessoal.
2.   Alguma assistência em todos os passos das tarefas.
3.   Alguma assistência em um ou mais passos das tarefas.
4.   Assistência mínima antes e/ou depois das tarefas.
5.   Independente para todas as tarefas como lavar seu rosto e mãos, pentear-se, escovar os dentes, e fazer a barba. Inclusive usar um barbeador elétrico ou de lâmina, colocar a lâmina ou ligar o barbeador, assim como alcançá-las no armário. As mulheres devem conseguir se maquiar e fazer penteados, se usar.
                                                                                                   Subtotal:

3. Uso do banheiro

1.   Dependente. Incapaz de realizar esta tarefa. Não participa.
2.   Assistência em todos os aspectos das tarefas.
3.   Assistência em alguns aspectos como nas transferências, manuseio das roupas, limpar-se, lavar as mãos.
4.   Independente com supervisão. Pode utilizar qualquer barra na parede ou qualquer suporte se o necessitar. Uso de urinol à noite, mas não é capaz de esvaziá-lo e limpá-lo.
5.   Independente em todos os passos. Se for necessário o uso de urinol, deve ser capaz de colocá-lo, esvaziá-lo e limpá-lo.
                                                                                                   Subtotal:

4. Banho

1.   Dependente em todos os passos. Não participa.
2.   Assistência em todos os aspectos.
3.   Assistência em alguns passos como a transferência, para lavar ou enxugar ou para completar algumas tarefas.
4.   Supervisão para segurança, ajustar temperatura ou na transferência.
5.   Independente. Deve ser capaz de executar todos os passos necessários sem que nenhuma outra pessoa esteja presente.
                                                                                                   Subtotal:
5. Continência do esfíncter anal.
1.   Incontinente.
2.   Assistência para assumir a posição apropriada e para as técnicas facilitatórias de evacuação.
3.   Assistência para uso das técnicas facilitatórias e para limpar-se. Freqüentemente tem evacuações acidentais.
4.   Supervisão ou ajuda para por o supositório ou enema. Tem algum acidente ocasional.
5.   O paciente é capaz de controlar o esfíncter anal sem acidentes. Pode usar um supositório ou enemas quando for necessário.
                                                                                                   Subtotal:

6. Continência do esfíncter vesical

1.   Incontinente. Uso de caráter interno.
2.   Incontinente, mas capaz de ajudar com um dispositivo interno ou externo.
3.   Permanece seco durante o dia, mas não à noite, necessitando de assistência de dispositivos.
4.   Tem apenas acidentes ocasionais. Necessita de ajuda para manusear o dispositivo interno ou externo (sonda ou catéter). 
5.   Capaz de controlar seu esfíncter de dia e de noite. Independente no manejo dos dispositivos internos e externos.
                                                                                                   Subtotal:

7. Vestir-se

1.   Incapaz de vestir-se sozinho. Não participa da tarefa.
2.   Assistência em todos os aspectos, mas participa de alguma forma.
3.   Assistência é requerida para colocar e/ou remover alguma roupa.
4.   Assistência apenas para fechar botões, zíperes, amarrar sapatos, sutiã, etc.
5.   O paciente pode vestir-se, ajustar-se e abotoar toda a roupa e dar laço (inclui o uso de adaptações). Esta atividade inclui o colocar de órteses. Podem usar suspensórios, calçadeiras ou roupas abertas.
                                                                                                   Subtotal:
8. Transferências (cama e cadeira)
1.   Dependente. Não participa da transferência. Necessita de ajuda (duas pessoas).
2.   Participa da transferência, mas necessita de ajuda máxima em todos os aspectos da transferência.
3.   Assistência em algum dos passos desta atividade.
4.   Precisa ser supervisionado ou recordado de um ou mais passos.
5.   Independente em todas as fases desta atividade. o paciente pode aproximar da cama ( com sua cadeira de rodas ), bloquear a cadeira, levantar os pedais, passar de forma segura para a cama, virar-se, sentar-se na cama, mudar de posição a cadeira de rodas, se for necessário para voltar e sentar-se nela e voltar à cadeira de rodas.
                                                                                                   Subtotal:

9. Subir e descer escadas

1.   Incapaz de usar degraus.
2.   Assistência em todos os aspectos.
3.   Sobe e desce, mas precisa de assistência durante alguns passos desta tarefa.
4.   Necessita de supervisão para segurança ou em situações de risco.
5.   Capaz de subir e descer escadas de forma segura e sem supervisão. Pode usar corrimão, bengalas e muletas, se for necessário. Deve ser capaz de levar o auxílio tanto ao subir quanto ao descer.
                                                                                                   Subtotal:

10. Deambulação

1.   Dependente na deambulação. Não participa.
2.   Assistência por uma ou mais pessoas durante toda a deambulação.
3.   Assistência necessária para alcançar apoio e deambular.
4.   Assistência mínima ou supervisão nas situações de risco ou período durante o percurso de 50 metros.
5.   Independente. Pode caminhar, ao menos 50 metros, sem ajuda ou supervisão. Pode usar órtese, bengalas, andadores ou muletas. Deve ser capaz de bloquear e desbloquear as órteses, levantar-se e sentar-se utilizando as correspondentes ajudas técnicas e colocar os auxílios necessários na posição de uso.
                                                                                                   Subtotal:
10-A. Manuseio da cadeira de rodas (Alternativo para deambulação)
1.   Dependente na deambulação em cadeira de rodas.
2.   Propulsiona a cadeira por curtas distâncias, superfícies planas. Assistência em todo o manejo da cadeira.
3.   Assistência para manipular a cadeira para a mesa, cama, banheiro, etc.
4.   Propulsiona em terrenos irregulares. Assistência mínima em subir e descer degraus, guias.
5.   Independente no uso de cadeira de rodas. Faz as manobras necessárias para se deslocar e propulsiona a cadeira por pelo menos 50 metros.
                                                                                                   Subtotal:
                                                                                      Total de pontos:

Fontes:
1) CARRILO, M. D. V.; GARCIA, M. F.; BLANCO, I. S. Escalas de actividade de la vida diaria. Rehabilitación. v. 28, n. 6, p. 377-388, 1994; 2) CHAGAS, E. F. Proposta de avaliação da simetria e transferência de peso e a relação desta condição com a atividade funcional do hemiplégico. 1999. 127f. Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas, Campinas; 3) SHAH, S.; VANCLAY, F.; COOPER, B. Improving the sensitivity of the Barthel index for stroke rehabilitation. J. Clin Epidemiol, v. 42, n. 8, p. 703-709, 1989.

Muitas vezes observa-se que a família não permite ou protege o paciente das atividades das quais ele é capaz ou parcialmente capaz. Muitas famílias não retornam a rotina, como a de servir almoço na mesa da cozinha dando a alimentação na cama ou mesmo servindo na boca, além disso, durante o banho o paciente não participa da sua higiene, ficando ao cuidador realizar todas as tarefas. Muitos pacientes passam a maior parte do tempo sentados em sofás em frente à televisão ou em suas camas impedindo todas as suas experiências funcionais, podendo determinar uma sequela irrecuperável.

O fisioterapeuta deve lembrar a família e o cuidador que ainda que se gaste mais tempo quando o paciente realiza as atividades, cada movimento é muito importante para a recuperação das atividades gerais.

A falta de experiência que uma família tem quando um parente tem um AVE é nítida, pois as pessoas querem fazer tudo para o paciente. Isto é muito importante na fase aguda, todavia, isto não pode perdurar por semanas, pois o retorno das funções devem ser estimuladas já nas primeiras semanas, já que o retorno funcional deve ocorrer nos primeiros meses.

O medo da queda é um dos fatores que parece ser determinante para que as famílias façam todas as atividades para o paciente, associado ao cuidado excessivo por falta de orientação. A perda motora de um hemicorpo deve ser considerada e o paciente realmente precisa ser protegido e auxiliado. Porém, quando se observa o mínimo de movimentos deve-se estimular e propor tarefas e objetivos a serem alcançados.

Durante avaliação o fisioterapeuta deve explicar a importância de cada item avaliado e dar orientações de como vencer os obstáculos para melhorar o déficit apresentado com exercícios terapêuticos diários.

O índice deve ser visto como um ótimo roteiro de orientação e o fisioterapeuta pode criar suas atividades terapêuticas para melhorar os escores de cada item dividindo a responsabilidade com a família e o paciente.

As figuras ilustram alguns itens que são avaliados pelo IBM. Importante lembrar que a terapêutica utilizada pelo fisioterapeuta objetiva dar amplitude de movimento, força muscular, coordenação e equilíbrio para que as funções sejam executadas da melhor forma possível.



Esta avaliação pode ser feita periodicamente com o paciente e o cuidador, demonstrando a evolução dos resultados a cada avaliação e propondo novas tarefas para melhorar estes valores. Além disso, quando se estuda a dificuldade observada em cada item o fisioterapeuta pode propor exercícios que utilizem músculos e articulações responsáveis pela melhora da execução da tarefa deficitária.

Exemplos:

1) Para se sentar num vaso sanitário é necessário ter força muscular em flexores e extensores de quadris e joelhos, e podem ser treinados diariamente longe do vaso sanitário;
2) A fraqueza muscular de músculos da região do ombro e escápula podem dificultar a mobilidade necessária para a higiene pessoal. Uma vez testada a mobilidade e a força muscular, o treinamento destes facilitará a função;
3) O déficit de equilíbrio prejudica o ortostatismo de curto e longo período e o treinamento específico para desta debilidade poderá melhorar atividades funcionais.

A pérola fisioterapêutica desta postagem norteia-se em:

O fisioterapeuta deve fundamentar suas terapêuticas no retorno do movimento  para uma vida funcional adequada, além de conscientizar o paciente e sua família da importância da execução dos exercícios para o retorno funcional.

Por hoje é isto!
Espero que você possa pensar neste assunto e fazer suas considerações deixando um comentário e compartilhando este post.
Um abraço fisioterapêutico.